carta padre Antonio Seganfreddo ano de 1903

1903 




- Meu querido e amado confrade , Padre Faustino.



 Capoeiras, 17 de setembro de 1903



 Recebi sua querida carta de 27 de agosto. Agradeço-lhe e retribuo  com muitos   agradecimentos pelos cartões-postais que enviou com fotografias  de meus antigos companheiros e confrades  de São Paulo; Muito obrigado, e que o bom Deus o recompense por este grande favor que me fez. Tenho certeza de que suas tarefas, trabalhos e sacrifícios devem ser um fardo enorme e quase insuportável, mas, tenha coragem, querido confrade . Deus nos ajudará e tudo correrá bem. O trabalho do qual o senhor é Reitor é sublime; o senhor foi coadjutor no trabalho com os órfãos  .( orfanato Cristóvão \Colombo )Aqui também há tarefas, trabalhos e sacrifícios incontáveis,  muitas dificuldades que nem se pode mensurar. . Imagine um território onde vivem mais de seiscentas famílias, e para visitar as mais distantes de casa, preciso  andar um dia a cavalo, por estradas intransitáveis ou, melhor ainda, por trilhas no meio da floresta virgem, onde há valões , morros , riachos, pântanos e córregos sem pontilhões . Agora, porém, as estradas melhoraram um pouco; depois de algumas.obras .  Em geral elas se encontram em péssimo estado e eu não me sinto seguro em ir a cavalo; caminho por três ou quatro horas seguidas a pé. Há um lugar chamado Turvo, onde vivem trezentas famílias, cercado por dois rios , Turvo e Prata. Para visitá-los, preciso atravessar o rio Prata de canoa e, na falta de uma, passo caminhando.( creio q onde dá passo)  As estradas estão abandonadas e ninguém cuida delas. Os colonos esperam por ajuda do governo, mas ela nunca chega, e enquanto isso, o pior acontece ao pobre missionário. O padre Pandolfi ficou naquele lugar por um ano, como ele mesmo disse, para fazer penitência por seus pecados.(Turvo é agora Protásio Alves) O padre Serraglia foi lá uma vez e nunca mais quis voltar, então agora é a vez de Barba Toni. Das cerca de seiscentas famílias, aproximadamente duzentas são de origem polonesa,italiana   ,alemã e brasileira; estas últimas vivem da criação de gado nos campos, nos prados , que ficam longe da sede, mais precisamente da área de mato , a 14 quilômetros de distância. . Nos campos, com licença de bispo , construíram duas capelas com seus próprios cemitérios; uma terceira será construída em breve. A população moradora nas   varzeas  é mista; há muitos italianos, e eu os visito a cada dois ou três meses; para informá-los  e também pregar o catecismo, eles estão sempre dispostos a comparecer. . De todas as dificuldades aqui, a maior é a travessia do Rio da Prata. Tenho que passar por cinco lugares... primeiro a cavalo, e em épocas de cheia a água chega à sela,   o  cavaleiro corre o  o risco de ser arrastado pela correnteza, que é muito forte. A região aqui  é um planalto, a 860 metros acima do nível do mar, e devido a essa posição, os rios têm várias cachoeiras, algumas com 20 metros de altura, e  devido à rapidez da correnteza as passagens  são  perigosas.. Quando eu estava em Alfredo Chaves, o padre Provincial  me deu uma bronca solene um dia, ao saber que eu havia atravessado o Rio da Prata com os paramentos de altar e vestes litúrgicas no ombro; e ele me proibiu estritamente de ir com estes perigos. .E como eu poderia obedecer? O rio tem de 25 a 30 metros de profundidade, e eu levaria pelo menos quatro horas para caminhar até o porto.(de Muçum ) O Superior pode me dar ordens, mas às vezes simplesmente não se pode obedecer. Ele me disse: "Não vá mais, vá apenas uma vez por ano; mas  será que aquelas pobres pessoas abandonadas devem ser esquecidas   e   será que os doentes precisam ser privados do conforto da religião? Deus sempre me ajudou e nada de terrível aconteceu. Claro, sinto  um pouco de medo. Há um mês, fui chamado para atender um jovem pobre que estava doente e morrendo de tétano. Cheguei ao rio, que estava com uma correnteza forte, e depois de mais de uma hora no escuro, passei em um bote à luz de uma lanterna, rezando recomendado minha alma , tremendo de medo de que a correnteza trouxesse  um tronco de árvore na corrente   e até mesmo arrastasse o bote, e eu disse: 'Pobre  Barba  Toni, desta vez você vai para Porto Alegre sem barco.' Fiquei feliz depois, porque trouxe grande consolo ao doente e à sua família desolada; ele era filho único de dois idosos pobres e o único sustento deles ali... Foram consolados  . 





Observando que a parte final da carta tem muitas palavras apagadas, mas  ele escreve que tem boa saúde, que entá em harmonia e contato com os outros missionários, mas a ele toca atender o imenso território.
O padre Antonio Seganfreddo sempre se despede assim:
Sou vosso servo,
P.Antonio 
seganfreddo

Outra observação é que algumas linhas estavam povoadas por imigrantes poloneses, alemães , italianos e ele mensiona os 'BRASILEIROS' que eram os proprietários das áreas de campo, criavam gado, ovelhas, cavalos, e como ele escreve" vivem do pastoreio"
Eu tenho conhecimento que ali naquela área  havia  pelo menos tres grandes fazendeiros: Antonio Silvério de Araújo, Joaquim Fernandes e os D"Avila, que eram donos da região de Protásio Alves.
Esses fazendeiros criavam gado, mas a área de mato eles requereram a posse e lotearam  e venderam para  assentamento dos imigrantes,

Contaram que Antonio Silvério de Araujo que doou os lotes para o povoado de Capoeiras  morreu com 42 anos de idade. Havia suspeita de envenenamento, mas a investigação foi arquivada
Segundo o professor e historiador Ney Possap D'Avila descendente daquela família D'Avila havia muitas ilicitudes nesse processo de assentamento de imigrantes.
Geraldo Farina também escreveu sobre isso.
Os padres missionários iam nas fazendas porque ali recebiam doações para fazer por exemplo, Igrejas.

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